sábado, 9 de março de 2013

Nietzsche: Tudo que se chama amor.

Cupidez, amor - ah! como essas duas palavras têm sons diferentes em nosso coração! Talvez expressem, entretanto, o mesmo instinto batizado duas vezes: a primeira pejorativamente, do ponto de vista daqueles que já possuem, que já têm um instinto de posse levemente formado e que temem portanto pelos seus "bens"; a segunda elogiosamente, do ponto de vista dos insatisfeitos e dos ávidos que encaram esse instinto como "bom". Nosso "amor ao próximo" não é na verdade um desejo imperioso de uma nova posse? E não acontece o mesmo relativamente ao amor à ciência e à verdade? Deixamos pouco a pouco o antigo, do que possuímos seguramente, temos necessidade de estender ainda nossas mãos. A mais bela paisagem, depois que vivemos em face dela durante três meses não nos agrada mais, qualquer margem distante nos atrai com maior intensidade: uma possessão geralmente diminui com o uso. O prazer que tiramos de nós mesmos procura se manter transformando sempre qualquer coisa nova em nós mesmos e precisamente a isto chama-se possuir. Cansar-se de uma possessão é cansar-se de si mesmo. (O sofrimento pode provir do excesso; a necessidade de jogar fora, de dar, pode também receber o nome lisonjeiro de "amor".) Quando vemos alguém sofrendo aproveitamo-nos com agrado essa ocasião que se apresenta de nos apoderarmos dele; assim o faz o homem caridoso, o indivíduo complacente, que também chama de "amor" esse desejo de uma nova posse que despertou em sua alma e tem prazer nisso como diante do apelo de uma nova conquista. Mas no amor de sexo para sexo que se revela mais nitidamente em desejo de posse: aquele que ama quer ser possuidor exclusivo da pessoa que deseja, um poder absoluto tanto sobre seu corpo quanto sobre sua alma, quer ser amado unicamente, instalar-se e reinar em outra alma como o mais alto e desejável. Se considerarmos que isso significa excluir o mundo inteiro do gozo de um bem e de uma felicidade preciosas; se pensarmos que aquele que ama deseja empobrecer e privar os demais concorrentes e tornar-se o dragão de seu tesouro como o mais indiscreto "conquistador", o mais egoísta dos exploradores, se considerarmos que todo o resto do mundo lhe parece indiferente, desbotado, sem valor e que está pronto para fazer qualquer sacrifício, perturbar qualquer ordem estabelecida, relegar a segundo plano tudo quanto lhe interessa, espantamo-nos que essa cupidez bárbara, essa furibunda injustiça do amor sexual, tenha sido glorificada a tal ponto, deificada em todos os períodos da história, pior, que se tenha tirado deste amor a ideia de amor como o oposto do egoísmo, enquanto talvez seja sua expressão mais espontânea. O uso, aqui, deve ter sido criado por aqueles que ainda não possuíam e que desejavam possuir; talvez sempre tenham sido um número excessivo. Os que possuíram muitos e conheceram a saciedade, deixaram vez por outra escapar uma palavra falando de "demônio furioso", como Sófocles, o mais amável e mais amado dos atenienses; mas Eros sempre se ri de tais blasfemos; são seus grandes favoritos. Existe realmente aqui e além na terra uma espécie de prolongamento do amor, no qual o desejo experimentando por dois seres dá lugar a um novo desejo, a uma nova cobiça, a uma sede comum e superior, de um ideal que ultrapassa a ambos: mas quem conhece esse amor? Quem o viveu? Seu nome verdadeiro é amizade.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Nietzsche: A doutrina do objetivo da vida.


Friedrich W. Nietzche
Considerando os homens com bondade ou malevolência, encontro-os sempre, a todos e a cada um, ocupados numa mesma tarefa: torna-se úteis à conservação da espécie. E isto, não por amor a esta espécie, pura e simplesmente porque não há neles nada de mais antigo, mais possante, mais impiedoso e mais invencível que esse instinto... posto que esse instinto é precisamente a essência de nossa espécie, de nossa grei. Ainda que se chegue rapidamente, com a miopia ordinária, a separar a cinco passos seus semelhantes em seres úteis e nocivos, em seres bons e maus, quando fazemos o balanço final e refletimos sobre o conjunto terminamos por desconfiar dessas depurações, dessas distinções e renunciamos a elas. Pode ser que o homem mais prejudicial seja o mais útil à conservação da espécie, porque sustenta em si mesmo, ou nos demais, através de sua ação, instintos que se inexistentes teriam amolecido e corrompido a humanidade há muito tempo. O ódio, o prazer de causar prejuízo, sede de tomar e dominar e, de modo geral, tudo que se dá o nome de mal, no fundo nada mais são que elementos da espantosa economia da conservação da espécie; economia onerosa, sem dúvida, pródiga e, no imo, altamente insensata mas que, como está demonstrado, manteve a nossa raça até agora. Meu caro congênere e próximo, não sei se ainda poderás viver em detrimento da nossa espécie, viver "desarrazoavelmente", viver "mal"; aquilo que poderia prejudicar a espécie talvez tenha morrido há milhares de anos; talvez seja, agora, uma daquelas coisas diante das quais Deus pode fazer algo. Satisfaça tuas melhores ou piores inclinações e, antes de mais nada, dirige-te para tua perdição; favorecerás de qualquer modo o progresso da humanidade, serás sempre o seu benfeitor e merecerás panegíricos... bem como as troças! Mas, jamais encontrarás aquele que saberá zombar de ti, a ti indivíduo, inteiramente, mesmo naquilo que tens de melhor, aquele que será capaz de representar-te com força suficiente para aproximar da verdade, pobre mosca, pobre rã, a tua incomensurável pobreza. Para que nos ríssemos de nós, como faria a verdade completa, os melhores não tiveram, ainda, suficiente paixão pelo verdadeiro, os mais dotados, gênio suficiente! Pode ser que  ainda haja um futuro para o riso! Que acontecerá quando a máxima "a espécie é tudo, o indivíduo nada" tiver penetrado até a medula a humanidade e quando todos tiverem livre acesso a esta suprema libertação, suprema irresponsabilidade. Talvez, então, o riso tenha se aliado à sabedoria, talvez haja uma "gaia ciência". Entrementes, na espera, tudo caminha de maneira muito diferente, enquanto se aguarda, a comédia da existência não tomou consciência de si, enquanto se espera continuamos na idade da tragédia, das morais e das religiões. Qual o significado desta vaga sempre nova de fundadores de morais e de cultos, instigadores dos combates que se travam entre este e aquele valor ético, professores de remorsos e de guerras de religião? Que significam, nos palcos, esses heróis? Por que foram até agora os heis, e o resto, por vezes, muito chegado a nós, tudo que se via da cena, nunca serviu para mais, bastidor ou maquinaria, criado de quarto ou confidente, que preparar seus papéis. (Os poetas, como exemplo, sempre foram os criados de quarto de alguma moral)... Infere-se que esses trágicos sempre trabalham no interesse da espécie, ainda que talvez pensem que trabalhem no interesse de Deus como enviados desse Deus. Favorecem a vida da espécie favorecendo a fé na vida. "Vale a pena viver a vida", dizem, "a vida é uma coisa importante, há algo por detrás dela, sua aparência esconde um objeto, tomai cuidado com isso". O instinto de preservação, instinto que reina tanto entre homens superiores quanto entre os mais rudes, transparece de tempos em tempos sob o aspecto da razão ou da paixão intelectual; arrasta a seu lado, então, uma escolta  completa de razões coruscantes e busca mergulhar no olvido - a qualquer preço - que é simplesmente instinto, inclinação, loucura e inexistência de razões! É preciso amar a vida, porque...! O homem deve trabalhar para a sua vida e para a sua vida e para a de seus semelhantes, porque...! e outros "deve-se" e outros "é preciso" e, outros "porque" de ontem, de hoje ou de amanhã!  É porque tudo que sempre acontece necessariamente, o que acontece por si mesmo e sem nenhuma finalidade aparece doravante como tendendo a um fim e parece ao homem razão e lei suprema. É por esta razão que o mestre de moral sobe para sua cátedra de professor de "objetivo da vida", é por isso que ele inventa uma outra vida, uma segunda vida e que por meio de uma nova mecânica faz soltar de seus velhos e vulgaríssimos gonzos nossa velha existência tão vulgar. Não deseja de modo algum que nos riamos da existência, nem de nós e... nem dele! Um ser para ele é sempre um, alguma coisa primeira, última formidanda; para ele não há espécie, não há soma, não há zero. Por mais loucas, extravagantes que possam ser suas invenções e suas valorizações, por maior que seja seu desconhecimento da marcha da natureza, por mais violência que ele faça sobre as condições naturais - e todas as éticas, até o presente, foram tão intensamente loucas, de tal maneira contra natura que as mais ínfimas delas teriam feito parecer a humanidade se tivessem conseguido penetração, apesar de tudo sempre que o "herói" aparecesse no palco obter-se-ia algo novo, espantosa oposição do riso, profunda emoção de muitos indivíduos diante deste pensamento: "Sim, vale a pena viver a vida! Sim, sou digno de viver!" a vida, eu, tu. Todos quantos somos voltava a ser interessante, por algum tempo, aos nossos olhos. 
 Não se pode afirmar que a longo prazo, o riso, a natureza e o bom senso não tenham derrotado esses grandes professores de objetivo: a curta tragédia da existência e - para falar conforme Ésquilo - "o mar do sorriso inumerável" acabará fatalmente por cobrir também o maior  de todos os trágicos. Mas apesar deste sorriso corretivo, a natureza humana, no final de contas, foi modificada pelo incessante regresso desses professores do objetivo da existência; e esta natureza tem agora mais uma necessidade e, esta é precisamente a de ver regressar incessantemente esses professores e essas lições. O homem tornou-se pouco a pouco um animal quimérico cuja existência está submetida a uma condição a mais que outros animais: é preciso que imagine de tempos a tempos que sabe o porquê de sua existência, sua espécie não pode prosperar sem uma confiança periódica na vida! Sem acreditar na razão da vida! E a espécie humana não deixará de decretar de vez em quando: "Há qualquer coisa de que não temos, de modo algum, o direito de rir". E o filantropo mais previdente acrescentará: "O riso e a sabedoria alegre não são os únicos que fazem  parte dos meios e das necessidade da manutenção da espécie; o trágico também faz parte dela, com sua sublime sem razão!" Consequentemente! Consequentemente! Consequentemente! Compreendeis-me, meus irmãos? Compreendeis esta nova lei do fluxo e do refluxo? Nós haveremos de ter a nossa hora!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

O Materialismo Marxista


Para Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895) a teoria hegeliana do desenvolvimento geral do espírito humano não conseguia explicar a vida social, que se apresentava, de um lado, como avanço técnico, como aumento do poder do homem sobre  a natureza, como enriquecimento e como progresso; mas, de outro, e contraditoriamente, trazia a escravidão crescente da classe operária, cada vez mais empobrecida.
Karl Marx  e Friedrich Engels 
Dando sequência ás críticas feitas por Feuerbach ao idealismo hegeliano, Marx e Engels realizam a inversão desse mesmo idealismo, assentando as bases do materialismo dialético: “a dialética de Hegel foi colocada com a cabeça para cima ou, dizendo melhor, ela, que se tinha apoiado exclusivamente sobre sua cabeça, foi de novo resposta sobre seus pés”.
A teoria marxista compõe-se de uma teoria cientifica, o materialismo histórico, e de uma filosofia, o materialismo dialético.
Para o materialismo, o mundo material é anterior ao espírito e este deriva daquele. Trata-se de uma visão oposta ao idealismo, que considera o mundo material como a encarnação da “ideia absoluta” da “consciência”. Para os materialistas, a história da filosofia tem uma longa tradição idealista que está pressuposta até nas teorias em que o idealismo não transparece de imediato, como a teoria do Primeiro Motor Imóvel, com a qual Aristóteles explica o movimento do mundo.
Segundo a visão materialista, o movimento é a propriedade fundamental da matéria e existe independentemente da consciência. A matéria é um dado primário e é a fonte consciência. A consciência é um dado secundário, derivado, pois é reflexo da matéria.
No entanto, é preciso distinguir o materialismo marxista, que é dialético, do materialismo anterior a ele, conhecido como materialismo mecanicista ou “vulgar”. Este se funda numa causalidade linear que simplifica grosseiramente a ação de matéria sobre o espírito, não permitindo ao homem nenhuma possibilidade de liberdade. Com o pensamento é reduzido a uma secreção do cérebro, e a ação humana é determinada pelas condições materiais das quais não pode fugir.
Enquanto o materialismo mecanicista parte da constatação de um mundo composto de coisas e, em última análise, de partículas materiais que se combinam de forma inerte, o materialismo dialético parte da consideração de que os fenômenos materiais são processos. Tal mudança de enfoque se tornou possível porque no século XIX as ciências descobrem novas formas de movimento além do movimento mecânico de simples mudança de lugar ou deslocamento: a descoberta da transformação da energia, a descoberta da célula viva e a descoberta da evolução das espécies. Essas novas formas indicam a possibilidade de mudança qualitativa. O mundo não é uma realidade estática, não é um relógio, um mecanismo regulado pelo “divino relojoeiro”, mas é uma realidade dinâmica, é um complexo de processos. Por isso, a abordagem da realidade só pode ser feita de maneira dialética, que considera as coisas na sua dependência recíproca, e não linear. Como vimos em Hegel, a dialética se processa segundo a tríade da tese, da antítese e da síntese.
No contexto dialético, também o espírito não é consequência passiva da ação da matéria, podendo reagir sobre aquilo que o determina. Isso significa que a consciência do homem, mesmo sendo determinada pela matéria e estando historicamente situada, não é pura passividade: o conhecimento do determinismo liberta o homem por meio da ação deste sobre o mundo, possibilitando inclusive a ação revolucionária.
O materialismo histórico não é mais do que a aplicação dos princípios do materialismo dialético ao campo da história. E, como o próprio nome indica, é a explicação da história por fatores materiais (econômicos, técnicos). O sendo comum pretende explicar a história pela ação dos grandes homens, das grandes ideias ou, às vezes, até pela intervenção divina. Marx inverte esse processo: no lugar das ideias, estão os fatos materiais; no lugar dos heróis, a luta de classes. Não nega, com isso, que o homem tenha ideias, mas as explica pela estrutura material da sociedade: a ideia é algo secundário, não no sentido de menos importante, mas no de algo derivado das condições materiais.
As ideias que aparecem tanto no direito como na literatura, na filosofia, nas artes e na moral estão diretamente ligadas ao modo de produção econômica. Por exemplo, a valorização da fidelidade do vassalo ao suserano na moral na sociedade da Idade Média decorre da relação de produção que os liga fortemente. Sem a fidelidade, essa relação de produção estaria arruinada. Na sociedade contemporânea, baseada no modo de produção capitalista, com a emergência da industrialização em grande escala, surge o consumismo como valor, ou seja, o precisar ter coisa para se sentir humano e aceito na sociedade.
Portanto, para estudar a sociedade não se deve, segundo Marx, partir do que os homens dizem, imaginam ou pensam, mas da forma com produzem os bens materiais necessários a sua vida. É analisando o contato que os homens estabelecem com a natureza para transformá-la por meio do trabalho e as relações entre si que se descobre como eles produzem sua vida e suas ideias.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O idealismo Hegeliano e a Dialética Idealista


A filosofia kantiana influenciou o pensamento do século XIX, seja na orientação dada pelos materialistas e positivistas, seja na dos idealistas, entre os quais se destacam Fichte, Shelling e Hegel.
Wilhelm Hegel (1770-1831)
O alemão Wilhelm Hegel (1770-1831) introduz uma noção nova, de que a razão é histórica, ou seja, a verdade é construída no tempo. Partindo da noção kantiana de que a consciência (ou sujeito) interfere ativamente na construção da realidade, propõe o que se chama de filosofia do devir, ou seja, do ser como processo, como movimento, como vir-a-ser. Desse ponto de vista, o ser está em constante transformação, donde surge a necessidade de fundar uma nova lógica que não parta do princípio de identidade (estático), mas do princípio de contradição para dar conta da dinâmica do real, a que chama a dialética.
Para tanto, Hegel desenvolve novo conceito de história, também dialético: o presente é engendrado por longo e dramático processo; a história não é a simples acumulação e justaposição de um processo cujo motor interno é a contradição dialética.
Segundo a dialética, todas as coisas e ideias morrem. Como diz o poeta Goethe: “Tudo o que existe merece desaparecer”. Mas essa força destruidora é também a força motriz do processo histórico. A ideia central é a de que a morte é criadora, é geradora. Todo o ser contém um si mesmo o germe da sua ruína e, portanto, da sua superação. O movimento da dialética se faz em três etapas: tese, antítese e síntese, ou seja:
1.      Tese: afirmação;
2.      Antítese: negação;
3.      Síntese: negação da negação.
Ao explicar o movimento gerador da realidade, desenvolve uma dialética idealista: no sistema hegeliano, a racionalidade não é mais um modelo a se aplicar, “mas é o próprio tecido do real e do pensamento”. O mundo é manifestação da ideia, “o real é racional e o racional é real”. A história universal nada mais é do que a manifestação da Razão.
Como ponto de partida do devir, Hegel coloca não a natureza – a matéria -, mas a ideia pura (tese). Esta, para se desenvolver, coloca um objeto oposto a si, a Natureza (antítese), que é a ideia alienada, o mundo privado de consciência. Da luta desses dois princípios antitéticos nasce uma síntese, o Espírito, há um tempo pensando e matéria, isto é, a ideia que toma consciência de si através da Natureza.
O conhecimento estabelecido a partir de uma realidade dada, imediata, simples aparência, é chamado por Hegel de conhecimento abstrato, ao qual opõe o conhecimento do ser real, concreto, que consiste em descrever o modo como uma realidade é produzida. Conhecer a gênese, processo de constituição pelas mediações contraditórias, é conhecer o real. Por esse movimento a Razão passa por todos os graus, desde o da natureza inorgânica, da natureza viva, da vida humana individual até social.
Os dois últimos graus (do homem individual e social) são a manifestação, num primeiro momento, do Espírito subjetivo do homem, ainda encerrado na sua subjetividade (enquanto emoção, desejo, imaginação). Ao Espírito subjetivo se opõe a antítese do Espírito objetivo, ou seja, o espírito exterior do homem enquanto expressão da vontade coletiva por meio da moral, do direito, da política: o Espírito objetivo se realiza naquilo que se chama mundo da cultura. Essa relação antítese é superada pelo Espírito absoluto, síntese final em que o Espírito, terminando o seu trabalho, compreende-o como realização sua. A mais alta manifestação do Espírito absoluto é a filosofia, saber de todos os saberes, quando o Espírito atinge a absoluta autoconsciência. Por isso, Hegel a chama de “pássaro de Minerva que chega ao anoitecer”, ou seja, a crítica filosófica se faz ao final do trabalho realizado.
Na filosofia posterior a Hegel, tornou-se fecunda a ideia de que a razão histórica e se transforma a partir dos conflitos e contradições. Como vemos, ora os pensadores reafirmam o caráter determinante da razão e reforçam o idealismo, ora criticam esse idealismo, como os marxistas, que enfatizam as contradições sociais e políticas como determinantes do processo que provoca a mudança da própria razão.

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sábado, 29 de dezembro de 2012

A religião da Humanidade

Templo Positivista

Essa rígida construção teórica culmina com a concepção da religião positiva. É ela que, integrando a sociedade dos vivos na comunidade dos mortos, na trindade formada pelo Grande Ser, pelo Grande Feitiço e pelo Grande Meio, fornecerá o enquadramento social que colocará os indivíduos ao abrigo das convulsões históricas. Não deixa de ser estranho constatar a criação de uma religião positiva, se considerar que o contexto comtiano privilegia o positivo como última fase de uma evolução iniciada pelo estado teológico, considerando o mais arcaico e infantil da humanidade. Nesse sentindo , “O exame da religião positiva pões-nos, mais uma vez, diante das antiguidades comtianas: trata-se de uma racionalização do sagrado ou de uma sacralização do racional?”
No entanto, a ideologia religiosa esteve presente desde os escritos de juventude, na forma ainda obscura do poder espiritual moderno, e finalmente no Curso de filosofia positiva, obra principal de Comte, foi pensada como imanente à sociologia. De fato, seguindo o modelo da lei dos três estados, Comte se refere ao poder espiritual que predominava na idade fetichista, na politeísta e na idade monoteísta, esta última correspondendo ao estado metafísico da humanidade, e que, decadente, permanecia em crise no século XIX.
Diante do poder espiritual arruinado, Comte via a necessidade de refunda-lo em princípios não teológicos, por meio da criação de uma igreja positiva, principalmente para convencer o proletariado a abandonar o projeto revolucionário. Na obra de Comte, o termino é a concretização do principio, o paradigma religioso substituiu o paradigma da economia politica como modelo ideal da sociologia da Ordem. Como pudemos ver, transubstanciada em religião, a sociedade pode, finalmente, desenvolver, sem subterfúgios, o seu conteúdo ideológico. A religião produziria o milagre da harmonia social.
Integrando a sociedade dos vivos na comunidade dos mortos, na trindade formada pelo Grande Ser, pelo Grande Feitiço e pelo Grande Meio, seria a religião da Humanidade que forneceria o enquadramento social para colocar os indivíduos ao abrigo das convulsões históricas.

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A sociologia, ciência Soberana


Comte reconhece que a matemática, pela simplicidade de seu objeto, desde a Antiguidade teria atingido o estado positivo e a considera à parte por ser uma espécie de instrumento de todas as outras. Ao fazer a classificação das ciências, portanto, distingue cinco delas: astronomia, física, química, fisiologia (biologia) e “física social” (sociologia). O critério da classificação parte da mais simples, mais geral e mais afastada do humano, que é a astronomia, até a mais complexa e concreta, a sociologia.
Auguste Comte (1798-1857)
Essa ordem de classificação não é apenas lógica, mas cronológica, pois as ciências apareceram no tempo nessa sequência. Também é uma ordem hierárquica de poder, em que a sociologia aparece como o poder dominante em relação à totalidade do saber científico. Apesar de ser mais dependente epistemologicamente, ela seria soberana entre todas, enquanto saber da totalidade da Ordem e do Progresso da humanidade, no passado, no presente e no futuro. Aliás, o curso de Filosofia positiva em grande parte foi pensado como ensinamento aos cientistas “destinados às mais altas funções sociais”.
Comte se diz fundador da sociologia, por ter sido ele quem lhe deu o nome e o estatuto de ciência. Define-se como uma física social, mas na verdade toma os modelos da biologia e explica a sociedade como um organismo coletivo. Entusiasmara-se pela então recente teoria frenológica de Gall, que analisa a inteligência humana pela sua origem orgânica, inclusive buscando delimitar as localizações celebrais dessas faculdades, sem considerar conceitos como “eu”, “alma”, “consciência”, típicos da filosofia tradicional. Inspirado por essa teoria, Comte afirma que apenas uma elite teria capacidade de desenvolver a parte frontal do cérebro, sede da faculdade superior, ou seja, da inteligência e dos sentimentos morais, e conclui pela necessidade de a maioria dos seres humanos – dominados pela afetividade e, portanto causadores da desestabilidade social – serem moldados e dirigidos em nome da harmonia e da ordem social, a fim de garantir o “progresso dentro da ordem”.
Dessa forma, reconhece que o individuo submetido à consciência coletiva; tem pouca possibilidade de intervenção nos fatos sociais. A ordem da sociedade é permanente, à imagem da invariável ordem natural constantes, como a propriedade, a família, o trabalho, a pátria, a religião.
Para alguns interpretes, a filosofia de Comte pode ser considerada como uma reação conservadora à Revolução Francesa (1789). No entanto, Comte não pensava em uma volta ao passado, à realeza e ao catolicismo, como forma de conservar a ordem burguesa abalada pela revolução. Não pretendia eliminar o progresso, mas desenvolver uma teoria da ordem com o progresso: ele quer participar da reconstrução, instituindo a ordem de maneira soberana. E é essa ideia de ordem que domina seu trabalho de sistematização da filosofia, levando-o à necessidade de classificar as ciências e todo o conhecimento em quadros fechados, estanques. (Observe que a palavra ordem significa ao mesmo tempo “arranjo” e “mando”). É o próprio Comte que afirma: “Nenhum grande progresso pode efetivamente se realizar se não tende finalmente para a evidente consolidação da ordem”.
A história não é mais pensada como um vir-a-Ser, mas como uma sequência congelada de estados definitivos, e a evolução nada, mas é do que a realização, no tempo, daquilo que já existia em forma embrionária e que se desenvolve até alcançar o seu ponto final.  O conceito de ciência comteano é o de um saber acabado, que se mostra sob a forma de resultados e receitas. Tendo colocado a ciência positiva como o ápice da vida e do conhecimento humanos, Comte prossegue estabelecendo uma série de postulados aos quais a ciência deve se formar. O principal deles é que a ciência deve assegurar a marcha normal e regular da sociedade industrial. Ora, ao fazer isso, Comte troca a teoria filosófica do conhecimento por uma ideologia.

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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Auguste Comte e a Lei dos Três Estados


Nesse ambiente cientificista, desenvolve-se no século XIX o pensamento positivista, cujo principal representante foi Auguste Comte (1798-1857). Ao examinar o desenvolvimento da inteligência humana desde os primórdios, Comte diz ter descoberto uma grande lei fundamental, segundo a qual o espirito humano teria passado por três estados históricos diferentes: o teológico, o metafisico e finalmente o positivo.

Auguste Comte (1798-1857)
No estado teológico, as explicações são dadas a partir de uma causalidade sobrenatural: os fenômenos resultam da ação dos deuses, no metafisico os agentes sobrenaturais são substituídos por forças abstratas, por noções absolutas pelas quais se procura explicar a origem e o destino do universo; finalmente, no estado positivo, decorrente do aparecimento das ciências, as ilusões são superadas pelo conhecimento das relações invariáveis dos fatos, por meio de observações e do raciocínio que visam alcançar as leis efetivas.

Para Comte, o estado positivo corresponde à maturidade do espirito humano. O termo positivo designa o real em oposição ao quimérico, a certeza em oposição à indecisão, o preciso em oposição ao vago. É o que se opõe a formas teológicas ou metafisicas de explicação do mundo.

Enfim no estado positivo, o espírito humano, reconhecendo a impossibilidade de obter noções absolutas, renuncia a procurar a origem e o destino do universo, a conhecer as causas intimas dos fenômenos, para preocupar-se unicamente em descobrir, graças ao uso bem combinado do raciocínio e da observação, suas leis efetivas, a saber, suas relações invariáveis de sucessão e de similitude. A explicação dos fatos, reduzida então a seus termos reais, se resume de agora em diante na ligação estabelecida entre diversos fenômenos particulares e alguns fatos gerais, cujo numero o progresso da ciência tende cada vez mais a diminuir.

O positivismo retoma a orientação daqueles que aproveitam a crítica feita por Kant à metafisica, no século XVII. E leva às ultimas consequências o papel reservado à razão de descobrir as relações constantes e necessárias entre os  fenômenos, ou seja, as leis invariáveis que os regem. Ao se estender as explicações sobre os fenômenos humanos, essa concepção expulsa delas a noção de liberdade. Isso porque as leis invariáveis da física se sustentam pelo postulado do determinismo segundo o qual o reino da ciência é o reino da necessidade. Entendemos por necessidade física a “determinação de um encadeamento causal, relação em que uma mesma causa determina sempre um mesmo efeito”. Nesse sentido, necessário opõe-se a contingente, ou seja, algo que pode ocorrer ou deixar de ocorrer, por ser livre e imprevisível. O determinismo cientificista desconsidera as formas de compreensão da realidade que não sejam positivistas. Portanto, expulsos os mitos, a religião, as crenças em geral e a metafisica, que papel reservado à filosofia? Segundo Comte, cabe a ela a mera sistematização das ciências, a generalização dos mais importantes resultados da física, da química, da história natural. Por isso Garcia Morente, comenta que “o positivismo é o suicídio da filosofia”.

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